«Caritas Christi urget nos»

Reconciliação e Comunhão

15 de dezembro de 2016 / Servi Christi / A Via Católica, Celebrar

Quando Deus criou o mundo foi para que nós fôssemos partícipes de sua amizade, uma vida repleta de graça e em uma vivência de comunhão de amor com Ele. Mas, para que nos tornássemos capazes de amar a Deus era preciso que Ele nos concedesse a liberdade de filhos e filhas de Deus, caso contrário, conviveríamos na graça, mas não teríamos a capacidade de amá-Lo, pois o amor pressupõe liberdade.

Com a queda do homem por causa de seu primeiro pecado, ou seja, que na liberdade de amar a Deus não o amou e pela desobediência ofendeu a Deus, e nós por conta de nossas próprias faltas, preferimos trocar o amor de Deus pelo amor a nós mesmos.

Deus havia dado tudo a nós, Deus nos amou e nos ama acima de todas as coisas, mas nós, não ligamos muito para isso e de diversas formas vamos nos afastando da presença e da amizade de Deus por nós. Porém, aqui há algo de espetacular, Deus não nos desamparou em nenhum momento, desde a queda do homem pelo primeiro pecado até os dias de hoje.

Mas, se Deus deu-nos a liberdade de amá-Lo, também deu-nos a liberdade de não amá-Lo e assim, nos tornamos incapazes de restaurar aquela amizade para a qual Deus nos criou. Para isso, Deus passa a se revelar ao homem e a apontar-lhe um caminho de volta. Deus nos amou de uma maneira tão grandiosa, Deus desejou-nos de tal forma, que enviou o seu único Filho, Jesus Cristo, nascido da Santíssima Virgem Maria, a fim de que Ele mesmo pudesse nos resgatar do pecado e nos devolver, pelo seu infinito e misericordioso amor, a vida na graça, ou seja, pela vida de seu Filho Jesus, Deus feito homem, a nossa comunhão com Deus pode ser restabelecida. Jesus vem nos confirmar que somos herdeiros do amor de Deus e de seu Reino, para o qual somos chamados a viver e a proclamá-lo a todos.

Batismo, Reconciliação e Eucaristia

Pelo Batismo somos libertos de todo o pecado, somos integralmente restaurados como filhos e filhas de Deus resgatados na Missão Salvífica de Jesus Cristo em seu único e perfeito sacrifício na Cruz. Desta forma, Jesus Cristo, por seus méritos nos devolve a comunhão com Deus, mas há aqui um porém, Deus não nos tirou uma característica nossa que nos torna capazes de amar, Deus não tirou a nossa liberdade de amá-Lo ou Dele nos afastarmos.

…os membros da Igreja estão sujeitos à tentação e, infelizmente, caem muitas vezes em pecados. Por isso, «enquanto Cristo ‘santo, inocente, sem mancha’ (Hebr 7, 26), não conheceu o pecado (2 Cor 5, 21), mas veio apenas para expiar os pecados do povo (cf. Hebr 2, 17), a Igreja, acolhendo no seu seio os pecadores, ela que é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, prossegue, sem cessar, o caminho da penitência e da renovação» Rito da Penitência n. 3

Mesmos que fomos amados de tal forma por Jesus Cristo, ainda somos capazes de não reconhecer este divino amor e nos afastarmos deliberadamente dele. Mas, Jesus Cristo, em sua Missão Salvífica, conhecendo o coração humano, deixou-nos um Sacramento de Reconciliação. Tal Sacramento é um dos atos fundantes da Igreja, pois, sabemos todos que Deus não comunga com o pecado, apesar de sua infinita misericórdia, Deus nos ensina que não devemos pecar e devemos sempre fugir de tais ocasiões, com a finalidade de nos mantermos sempre em seu Amor e em sua Graça, Deus quer que comunguemos inteiramente com Ele.

Para isso, se houver percalços no meio de nossos caminhos, Deus nos oferta os remédios, afim de sermos curados das manchas do pecado. Estes remédios, além do próprio Batismo, que como já dissemos, nos resgata inteiramente como imagem e semelhança do Pai, ainda recebemos, por graça divina e pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo os Sacramentos da Reconciliação e o Sacramento da Eucaristia, além da unção dos Enfermos, que trataremos em outra ocasião. Enfim, Deus não cansa de nos amar e de nos desejar como seus filhos. Pois Ele nos amou tanto, que deu-nos o seu único Filho para que voltássemos a viver de forma plena e abundante.

Sacramento da Reconciliação

“O pecador que, por graça de Deus misericordioso, entra pelo caminho da penitência, regressa ao Pai que «primeiro nos amou» (1 Jo 4, 19), a Cristo que Se entregou por nós e ao Espírito Santo que sobre nós foi derramado abundantemente.” Rito da Penitência n. 5

Todos nós sabemos que se estamos em pecado não comungamos com Cristo. Se tivermos a consciência de termos pecado, ofendendo a Deus ou ao nosso irmão deliberadamente, devemos ter consciência de que não devemos comungar sacramentalmente. O Papa Francisco nos ensina que  a Eucaristia“não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (Evangelii Gaudium)isso não significa que podemos comungar e continuar pecando e ofendendo a Deus, de forma alguma tal frase pode ser compreendida desta forma, até mesmo, porque o Santo Padre tem investido o seu Pontificado a promover a reconciliação do homem com Deus, por meio da Misericórdia Divina e do Sacramento da Reconciliação e nos convida a tomarmos uma escolha definitiva de retomada ao Caminho, à Verdade e à Vida de Deus, numa amizade paternal, que Deus mesmo assume conosco.

Para que possamos vivenciar uma verdadeira comunhão com Deus, precisamos pensar que a nossa vontade e o nosso intelecto precisa concorrer para isso, ou seja, as vezes podemos tomar o Corpo e o Sangue de Cristo sem que disso façamos nenhum discernimento, ou seja, tocamos o Sacramento mas pouco ou nada comungamos, pois, estamos em pecado e com um coração pouco disposto a amar e a viver com Deus.

São João Crisóstomo dizia que “nunca poderá chamar-se comunhão, ainda que toquemos mil vezes o corpo do Senhor”.

Para isso, Jesus confere aos seus Apóstolos o poder de perdoar os pecados daqueles que a eles os confessassem.

 “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós. Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.” João 20, 21-23

Claro, lembrando aqui, e gosto de pensar nisso, todos os seres humanos são de alguma forma deficientes, ninguém é perfeito e todos tem seus limites e fraquezas, isso significa, que todos que desejam se voltarem a Cristo por meio da Igreja, deve sentir a contrição de seus pecados e os confessarem para que recebam sacramentalmente a absolvição dos pecados e intencionem a nunca mais pecarem. Isso nos torna cristãos, não homens perfeitos, mas cristãos, pessoas simples e limitadas que se aproximam de Jesus Cristo. Seja por qualquer for o Sacramento que recebemos, devemos fazê-lo com no mínimo, boa disponibilidade de coração e intenção.

Também não podemos transformar a Igreja de Cristo em um clubinho de pessoas mais sociáveis que as outras, um local a ser frequentado apenas por pessoas mais respeitáveis.

A Igreja serve ao pecador e é para curar estes (ou seja, todos nós) que ela existe. É para remir homens e mulheres da vida do pecado, é para reaproximar os pecadores que buscam em algum momento voltarem-se para a verdade. Não ignoremos aqueles que temos por mais pecadores do que nós, pois, nós mesmos estamos confiados a misericórdia de Deus e dos irmãos, assim como aqueles outros pecadores estão confiados também ao nosso desejo de que tudo e todos sejam restaurados em Cristo Jesus.

Mas, em todo o caso, Jesus nos apresenta um caminho de amor sincero e que conta também com a nossa sinceridade ao ser seguido.

O discípulo de Cristo que, depois do pecado, movido pelo Espírito Santo, se aproxima do sacramento da Penitência deve, antes de mais, converter-se a Deus de todo o coração. Esta conversão interior do coração, que engloba a contrição do pecado e o propósito de nova vida, exprime-se pela confissão feita à Igreja, pela conveniente satisfação e pela emenda de vida. Deus, por seu lado, dá o perdão dos pecados por meio da Igreja, que actua pelo ministério dos sacerdotes.” Rito da Penitência n.6

Imagem e Semelhança de Deus

“Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti.” (Isaías 43, 4)

Deus é um Deus cuidadoso, amoroso e nos criou a sua imagem e semelhança, não quer ver nenhum de nós desfigurados desta condição. Deus fez, faz e fará tudo o que for possível para que cresçamos em sua amizade e em seu amor. Ele se entristece muito quando Dele nos afastamos, pois Ele nos quer próximos, seguros e protegidos por Ele.

Mas, se pecamos (e como já foi dito e repetido, por nossa própria liberdade e consciência) podemos perder as características de filhos e filhas de Deus, nos deformamos e é justamente isso que o inimigo de Deus e nosso mais quer que aconteça em nossas vidas. Se pecamos livremente, o inimigo nos acusa diante de Deus e isso ofende a Deus grandemente, pois Ele confia em nós e confia em nossas escolhas, justamente, por sermos nós, capazes de amar, por termos em nós a força de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.

Apesar do inimigo já estar vencido e julgado, já não nos pode ‘condenar’ diante de Deus, porque Deus Filho feito homem comungou plenamente com Deus e esta é a nossa defesa. Sempre que nós, homens e mulheres somos acusados diante de Deus pelo inimigo, Jesus, Filho de Maria, apresenta-se em nossa defesa e vence aquele que nos acusa diante de Deus.

Mas, para que tudo seja plenamente restaurado por meio de Jesus Cristo, é preciso que nos dediquemos com amor e com grande perseverança em tudo o que Ele nos ensinou ao anunciar a nós o seu Evangelho, o Reino de Deus e a conversão, para que Ele, Jesus Cristo seja tudo em nós e para que nós sejamos tudo Nele.

Para isso, restaurados pelo batismo, nós podemos, sempre que nos arrependermos de nossos pecados e de nosso afastamento do amor de Deus, reconciliar-se com Deus para comungar com Cristo na Igreja.

Comunhão e Penitência (Extraído do Rito da Reconciliação)

No sacrifício da Missa torna-se presente a paixão de Cristo, e o Corpo entregue por nós e o Sangue derramado para remissão dos pecados de novo são oferecidos a Deus pela Igreja para salvação de todo o mundo. Com efeito, na Eucaristia, Cristo está presente e é oferecido como «sacrifício de reconciliação» e para que nós, pelo seu Espírito Santo, «sejamos reunidos num só corpo». Ainda mais, o nosso Salvador Jesus Cristo, ao dar aos Apóstolos e aos seus sucessores o poder de perdoar os pecados, instituiu na sua Igreja o sacramento da Penitência, para que os fiéis que, depois do Baptismo, caíram no pecado se reconciliem com Deus, pela renovação da graça. A Igreja tem, de facto, «a água e as lágrimas: a água do baptismo, as lágrimas da penitência».

A penitência na vida e na liturgia da Igreja

O povo de Deus faz e aperfeiçoa esta penitência contínua de muitos e vários modos. Comungando pela paciência nos sofrimentos de Cristo, exercendo as obras de misericórdia e de caridade, convertendo-se, dia após dia e cada vez mais, segundo o Evangelho de Cristo, torna-se no meio do mundo sinal da conversão para Deus. Isto, a Igreja exprime-o na vida e celebra-o na sua liturgia, quando os fiéis se confessam pecadores e pedem o perdão de Deus e dos irmãos, como acontece nas celebrações penitenciais, na proclamação da palavra de Deus, na oração, e nos elementos penitenciais da celebração eucarística. Mas, no sacramento da Penitência, os fiéis «alcançam da misericórdia de Deus o perdão da ofensa que contra Ele cometeram e, ao mesmo tempo, reconciliam-se com a Igreja, a quem feriram com o pecado e que contribui para a conversão deles com a caridade, o exemplo e a oração. (Rito da Celebração da Penitência)

Papa Francisco e o Sacramento da Reconciliação

“Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia.” Misericoridiae Vultus.

Ato de Contrição

Meu Deus, porque sois infinitamente bom e Vos amo de todo o meu coração, pesa-me de Vos ter ofendido e, com o auxílio da Vossa divina graça, proponho firmemente emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Peço e espero o perdão das minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Amém.

Actus contritionis

Deus meus, ex toto corde pǽnitet me ómnium meórum peccatórum, éaque detéstor, quia peccándo, non solum pœnas a te iuste statútas proméritus sum, sed præsértim quia offéndi te, summum bonum, ac dignum qui super ómnia diligáris. Ideo fírmiter propóno, adiuvánte grátia tua, de cétero me non peccatúrum peccandíque occasiónes próximas fugitúrum. Amen.

 

João Batista Passos, Apostolado Servi Christi

Apostolado Servi Christi – Apostolado de Mútua Cooperação, Formação Catequética Continuada e para a Nova Evangelização.

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One thought on “Reconciliação e Comunhão

  • Texto bem refletido, ou seja, escrito com pesquisa e com oração, com responsabilidade de quem ama Deus e a sua criação, e, neste ato de majestade, a misericórdia com o homem livre e pecador.

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